Pesquisador demonstra execução de código nativo e modifica Mario Kart World com auxílio de inteligência artificial. A descoberta expõe falhas de segurança do console, mas ainda não oferece um sistema para executar jogos pagos sem comprá-los e apresenta riscos importantes para usuários comuns.
O Nintendo Switch 2 teve uma de suas barreiras de segurança ultrapassadas por uma exploração inteiramente baseada em software. A descoberta foi apresentada pelo pesquisador Sammy Hajhamid, conhecido como pepsipu, que desenvolveu o ns2jb, um exploit capaz de executar código nativo não autorizado com permissões de determinados componentes internos do console. Para demonstrar o resultado, o pesquisador modificou Mario Kart World, adicionando personagens que não pertencem ao jogo original, incluindo Peter Griffin, Hatsune Miku e Cinnamoroll. As imagens rapidamente ganharam repercussão, acompanhadas da afirmação de que o novo videogame da Nintendo havia sido desbloqueado.
A demonstração é legítima como evidência de uma modificação realizada no jogo, mas seu significado técnico exige uma análise mais ampla. Modificar um título comercial, executar código não autorizado e conseguir rodar jogos sem adquiri-los são capacidades distintas, que dependem de diferentes mecanismos de acesso. O ns2jb representa um avanço importante na exploração da segurança do Switch 2, mas não demonstra, até o momento, a existência de um ambiente completo para carregar cópias não autorizadas de jogos comerciais. Essa diferença é fundamental para compreender tanto a descoberta quanto suas limitações práticas.
A descoberta começou em um aplicativo do primeiro Nintendo Switch
O trabalho foi detalhado em um artigo técnico publicado em 18 de outubro de 2026, acompanhado posteriormente pela disponibilização do código-fonte no GitLab do pesquisador. A cadeia de exploração foi demonstrada no firmware 23.0.1 do Switch 2, disponibilizado pela Nintendo em 30 de setembro. Diferentemente de métodos que exigem alterações físicas no hardware, o ns2jb utiliza vulnerabilidades existentes em programas e serviços executados pelo próprio sistema operacional.
O ponto de entrada escolhido foi o SmileBASIC 4, um ambiente de programação originalmente desenvolvido para o primeiro Nintendo Switch e compatível com o novo console. O aplicativo permite escrever e executar programas utilizando a linguagem BASIC, mas uma falha identificada em seu interpretador tornou possível manipular áreas de memória além dos limites previstos pelo software. Trata-se de um integer overflow, uma operação matemática cujo resultado ultrapassa o intervalo suportado por um inteiro de 32 bits. Em determinadas circunstâncias, o erro compromete a verificação dos limites de uma estrutura de dados e permite leituras e gravações indevidas na memória do processo.
A escolha do SmileBASIC não foi casual. O pesquisador partiu do conhecimento acumulado sobre a segurança do primeiro Switch, cuja arquitetura já havia sido extensivamente investigada pela comunidade. Entretanto, a vulnerabilidade do aplicativo não seria suficiente, isoladamente, para comprometer o Switch 2. Sistemas modernos utilizam diferentes níveis de isolamento justamente para limitar os efeitos de uma falha encontrada em um programa comum. O avanço decisivo ocorreu quando a pesquisa encontrou uma segunda vulnerabilidade, desta vez dentro de um componente mais privilegiado do sistema operacional.
Esse componente é o FS, responsável por funcionalidades relacionadas ao sistema de arquivos. Segundo a documentação, uma falha no tratamento de determinados caminhos de arquivos permite ultrapassar os limites de um buffer de memória, caracterizando um buffer overflow. Combinada à manipulação de estruturas de armazenamento em cache, essa vulnerabilidade possibilitou obter leitura e escrita arbitrárias dentro do processo FS. O pesquisador afirma ter utilizado esse acesso para realizar operações privilegiadas, examinar o armazenamento interno e extrair código de outros módulos do sistema para continuar sua análise.
A importância dessa etapa está na combinação de vulnerabilidades presentes em componentes diferentes. O erro no SmileBASIC abriu um caminho inicial para a execução de código, enquanto a falha no FS permitiu alcançar uma região do sistema com permissões mais elevadas. A retrocompatibilidade ampliou a superfície disponível para a investigação, mas não é, por si só, a vulnerabilidade central. O problema de segurança demonstrado está na possibilidade de transformar uma falha inicialmente restrita a um aplicativo em acesso a um serviço interno que deveria permanecer protegido.
Como o pesquisador executou código sem quebrar as assinaturas da Nintendo
Depois de comprometer a memória do FS, ainda existia um obstáculo importante: fazer o console executar um programa nativo diferente daquele originalmente autorizado. O Switch 2 utiliza verificações criptográficas para autenticar componentes de software, incluindo assinaturas digitais e hashes relacionados ao conteúdo executável. Essas verificações foram desenvolvidas para impedir que programas modificados sejam livremente aceitos pelo sistema, mesmo quando seus arquivos podem ser acessados.
A solução encontrada não envolveu descobrir chaves privadas da Nintendo ou quebrar seus algoritmos criptográficos. Segundo a descrição técnica, o pesquisador utilizou o controle obtido sobre o FS para interferir nas informações fornecidas ao carregador de executáveis, chamado LDR. Durante a inicialização de um programa, o carregador recebe informações de autenticação e solicita acesso aos arquivos executáveis. Como o FS já estava comprometido, tornou-se possível substituir o objeto responsável por fornecer esses arquivos, preservando metadados válidos enquanto outro conteúdo executável era entregue.
Essa distinção explica a relevância da descoberta. A verificação criptográfica não deixou simplesmente de funcionar; o ataque explorou a confiança depositada no serviço responsável por entregar o conteúdo após determinadas verificações. Na prática, um componente comprometido foi utilizado para fornecer dados diferentes daqueles que o sistema esperava carregar. A cadeia descrita permitiu iniciar código nativo com permissões associadas a módulos legítimos e, posteriormente, modificar instruções executadas dentro do próprio FS.
Isso não equivale, entretanto, a obter controle total do Nintendo Switch 2. O artigo não demonstra um exploit completo do kernel nem o comprometimento da cadeia de inicialização segura do hardware. Essas proteções pertencem a camadas distintas e continuam relevantes mesmo depois que um serviço privilegiado é comprometido. A descoberta permite estudar e modificar aspectos importantes do funcionamento do console, mas não comprova que todos os mecanismos de segurança foram ultrapassados.
Modificar Mario Kart World não significa conseguir jogar gratuitamente
A demonstração de Mario Kart World foi o elemento de maior repercussão da pesquisa. O pesquisador exibiu o jogo comercial funcionando com personagens modificados, demonstrando que a exploração poderia ser utilizada para alterar seu comportamento. Esse resultado é relevante porque mostra uma aplicação prática do acesso conseguido ao sistema, mas não deve ser confundido com a capacidade de executar jogos comerciais sem possuir uma licença válida.
Um jogo modificado continua sendo um jogo cujo conteúdo ou comportamento foi alterado. Em termos técnicos, isso pode envolver mudanças em recursos gráficos, dados, instruções ou outros componentes utilizados durante a execução. Já a possibilidade de iniciar uma cópia comercial não autorizada exige superar outros controles, como os mecanismos de autenticação, licenciamento, distribuição e carregamento do conteúdo. Portanto, demonstrar uma modificação de Mario Kart World não significa demonstrar que qualquer usuário possa baixar uma cópia do título e executá-la gratuitamente em seu console.
Também é importante separar o conceito de homebrew da pirataria. Homebrew é o nome utilizado para programas independentes desenvolvidos para funcionar em uma plataforma, muitas vezes sem autorização ou ferramentas oficiais do fabricante. Esses programas podem incluir aplicativos, utilitários, jogos originais e ferramentas de pesquisa, sem necessariamente envolver a reprodução de propriedade intelectual de terceiros. A utilização de cópias não autorizadas de jogos comerciais é uma situação diferente, relacionada a direitos autorais e mecanismos de licenciamento. Da mesma forma, jogar gratuitamente um título legitimamente oferecido como free-to-play não equivale a obter sem autorização um jogo comercial pago.
O ns2jb cria possibilidades para execução de código e desenvolvimento de ferramentas independentes, mas o pacote disponibilizado publicamente não constitui um carregador convencional de jogos comerciais. A distribuição documentada apresenta uma demonstração controlada que executa pequenas funções nativas dentro do FS e restaura posteriormente as instruções modificadas. Não existe, nesse pacote, um firmware customizado completo com as funcionalidades normalmente associadas ao desbloqueio de uso cotidiano. Assim, a promessa de jogar títulos pagos gratuitamente não corresponde ao que foi efetivamente demonstrado e disponibilizado pela pesquisa.
O desbloqueio é temporário e ainda depende de um computador
Outra limitação importante é a ausência de persistência. O ns2jb é classificado pelo próprio desenvolvedor como um tethered jailbreak, ou seja, um desbloqueio que depende de um dispositivo externo para sua ativação. No procedimento documentado, o usuário precisa executar o SmileBASIC e utilizar um computador com ferramentas específicas, conectado à mesma rede local. As modificações realizadas nos processos do sistema são temporárias e desaparecem após uma reinicialização completa do console.
Isso não significa que o projeto seja incapaz de carregar código. O exploit utiliza mecanismos de carregamento e manipula componentes responsáveis pela inicialização de executáveis, mas não fornece um ambiente completo de homebrew com a estabilidade e as funcionalidades esperadas de um firmware customizado. Também não existe instalação permanente capaz de restaurar automaticamente os privilégios obtidos depois de desligar o aparelho. O código utilizado para iniciar a exploração pode permanecer armazenado, mas isso não torna persistentes as alterações de memória nem as permissões conquistadas.
A documentação pública também revela limitações de estabilidade. Em um teste físico relatado em 21 de outubro, a demonstração foi concluída com sucesso apenas na terceira inicialização do console. As duas tentativas anteriores foram interrompidas durante verificações internas, seguidas de procedimentos de limpeza. Esse resultado não permite estabelecer uma taxa geral de sucesso, mas mostra que o processo depende de condições específicas e pode falhar mesmo no ambiente utilizado para validá-lo.
Um espelho do projeto no GitHub apresenta verificações adicionais, incluindo a reconstrução de um pequeno binário nativo com resultado idêntico ao arquivo distribuído. Essa conferência ajuda a verificar a correspondência entre o código-fonte e aquele componente compilado, mas não representa uma auditoria de segurança completa. O mantenedor do espelho também esclarece que não reproduziu a exploração em um Switch 2 real. Existe, portanto, uma diferença entre uma cadeia tecnicamente documentada, a demonstração conduzida por seu autor e a comprovação de funcionamento estável por pesquisadores independentes.
Quais são os riscos de utilizar o ns2jb em um Nintendo Switch 2 comum?
Para o usuário que pretende utilizar o videogame normalmente, os riscos atuais precisam ser considerados antes de qualquer tentativa. O primeiro envolve estabilidade e integridade de dados. A exploração manipula regiões de memória pertencentes a serviços privilegiados do sistema, incluindo componentes relacionados ao gerenciamento de arquivos. Erros nesse processo podem provocar travamentos, reinicializações inesperadas e interrupções de operações em andamento. Dependendo das condições, falhas envolvendo arquivos ou gravações podem comprometer dados armazenados, embora a documentação consultada não comprove que o ns2jb tenha causado perda permanente de saves ou danos físicos a consoles.
Existe ainda o risco relacionado a cópias modificadas da ferramenta. A publicação do código-fonte permite examinar os componentes originais, mas não garante a segurança de arquivos distribuídos por terceiros. Um programa que solicita permissões elevadas e opera sobre estruturas internas do console pode causar danos quando contém erros ou comportamentos maliciosos. Por isso, a existência de um repositório público não deve ser interpretada como garantia de segurança para qualquer pacote anunciado como desbloqueio do Switch 2.
Outro ponto envolve os serviços online. O Acordo de Usuário do Nintendo Switch 2 estabelece restrições à utilização de software não autorizado e à alteração dos mecanismos de proteção da plataforma. O documento prevê a possibilidade de tornar o console ou determinados componentes de software permanentemente inutilizáveis, integral ou parcialmente, em situações envolvendo modificações não autorizadas. A Nintendo também documenta casos de restrição permanente de acesso aos serviços online, identificados pelos códigos de erro 2124-4007 e 2124-4508.
É necessário, porém, manter a diferença entre uma possibilidade prevista nas regras da fabricante e uma consequência comprovadamente causada pelo ns2jb. Até a data desta publicação, não foi estabelecida uma relação documentada entre a execução específica desse exploit e uma onda de banimentos ou inutilização permanente de consoles. Isso não elimina o risco de sanções futuras, mas impede afirmar que utilizar a ferramenta resulte automaticamente em bloqueio da conta, banimento do aparelho ou dano irreversível ao hardware.
As atualizações do sistema também representam uma limitação. Como a exploração depende de vulnerabilidades específicas de software, a Nintendo pode corrigir os componentes envolvidos e impedir que a cadeia continue funcionando nas mesmas condições. Por outro lado, manter um console desatualizado para preservar uma vulnerabilidade significa abrir mão de eventuais correções de segurança, melhorias e recursos que dependam de versões posteriores. O usuário pode acabar diante de uma escolha pouco vantajosa: atualizar e perder a compatibilidade com a ferramenta ou permanecer em uma versão antiga, com as limitações correspondentes.
Neste estágio, o benefício imediato para quem deseja apenas jogar é reduzido. Não existe uma solução pública completa para iniciar indiscriminadamente jogos comerciais sem adquiri-los, tampouco um desbloqueio permanente e simples de utilizar. Em contrapartida, há exigências técnicas, necessidade de equipamento auxiliar, risco de travamentos, possível comprometimento de dados e exposição a restrições dos serviços oficiais. Essas condições tornam o ns2jb mais adequado à investigação especializada do que ao uso cotidiano de consumidores.
A participação da inteligência artificial na descoberta
A pesquisa também chamou atenção pela utilização do Codex, ferramenta de inteligência artificial da OpenAI voltada ao desenvolvimento de software. Hajhamid montou um ambiente com dois consoles, equipamentos JetKVM e mecanismos de controle remoto que permitiam à IA enviar comandos, observar as imagens produzidas pelos aparelhos e realizar testes automatizados. Havia inclusive um mecanismo físico para pressionar o botão de energia quando algum experimento provocava travamentos e exigia reinicialização.
O pesquisador inicialmente investigou possibilidades de exploração envolvendo o WebKit, mas encontrou dificuldades para superar mecanismos de proteção de memória e integridade do fluxo de execução, como PAC, CFI e XOM. Esse caminho não produziu o jailbreak final. A mudança de estratégia para aplicativos do primeiro Switch foi uma decisão importante na continuidade da pesquisa, permitindo investigar software cujos componentes podiam ser examinados com mais facilidade.
O próprio autor esclareceu que o resultado não surgiu de um único comando enviado à inteligência artificial. A investigação exigiu aproximadamente duas semanas de trabalho substancial, enquanto a modificação apresentada em Mario Kart World foi desenvolvida com auxílio do Codex em cerca de um dia. A participação da IA é relevante porque demonstra como ferramentas automatizadas podem acelerar a identificação de vulnerabilidades, a análise de código e a realização de experimentos, mas não elimina a necessidade de interpretação técnica e validação dos resultados.
A consequência mais ampla dessa colaboração está na possibilidade de acelerar pesquisas semelhantes. Sistemas complexos possuem grandes quantidades de código e múltiplas superfícies de ataque, exigindo esforço considerável para identificar vulnerabilidades e estabelecer relações entre elas. Ferramentas capazes de automatizar partes desse processo podem ampliar a produtividade dos pesquisadores, mas também tornam mais importante a revisão das conclusões, a auditoria do código produzido e a análise das consequências de sua utilização.
O que a descoberta realmente muda para o Switch 2?
O ns2jb demonstra que determinadas barreiras de segurança do Nintendo Switch 2 podem ser atravessadas por meio de uma cadeia de vulnerabilidades exclusivamente de software. A combinação de um erro no SmileBASIC com uma falha no serviço FS permitiu alcançar componentes internos e executar código com permissões que normalmente não estariam disponíveis a um aplicativo comum. Esse resultado amplia as possibilidades de pesquisa sobre o hardware, de desenvolvimento de ferramentas independentes e de investigação de novas vulnerabilidades.
Ao mesmo tempo, não há demonstração de comprometimento completo do kernel, de quebra da inicialização segura ou de uma solução pública que permita executar livremente jogos comerciais sem licença. O desbloqueio permanece temporário, exige procedimentos específicos e ainda depende de novas verificações para estabelecer sua estabilidade fora do ambiente de pesquisa. O próprio desenvolvedor aponta a possibilidade de novos estudos, incluindo outros pontos de entrada e a exploração de componentes mais privilegiados, sem afirmar que essas etapas já tenham sido concluídas.
A importância do caso, portanto, não está em declarar que a Nintendo perdeu definitivamente o controle da plataforma, nem em diminuir uma descoberta porque ela ainda não produz os resultados esperados por consumidores interessados em desbloqueio. O que existe é uma pesquisa tecnicamente relevante, acompanhada de código e demonstrações, que expõe limitações concretas nas relações de confiança entre componentes do sistema operacional. Para a comunidade de segurança, representa uma nova base de investigação; para o consumidor comum, ainda não representa uma alternativa madura, estável ou isenta de riscos ao funcionamento oficial do console.
O Nintendo Switch 2 teve uma importante barreira de segurança ultrapassada. Isso é um fato documentado pela pesquisa. Transformar essa descoberta em um desbloqueio completo, capaz de executar jogos comerciais sem autorização e sem as limitações atuais, continua sendo uma possibilidade não demonstrada pelo ns2jb.
Fontes consultadas: pesquisa original de Sammy Hajhamid, repositório original ns2jb, documentação técnica e verificação de procedência, Acordo de Usuário do Nintendo Switch 2 e documentação de restrições online da Nintendo. Informações verificadas em 24 de outubro de 2026.



Comentários
Entre como aluno DG Cursos ou membro do canal para comentar.